Entrei dentro de casa com a nítida sensação que alguma coisa não iria correr bem. Mal fechei a porta a Joana veio a correr desde a cozinha até à entrada de casa bastante ofegante.
- O que se passa Joana? – tentei acalma-la – Tem calma…
- Nem vais acreditar em quem apareceu aqui hoje mesmo pouco tempo depois de teres saído de casa! – não conseguia lembrar-me de ninguém mas um aperto no coração formou-se de imediato
- Se não me disseres eu não vou saber!
- Foi um dos teus antigos seguranças, aquele mais forte, o louro sabes?
A imagem dele, do Sr. João, apareceu de imediato na minha mente. Lembrava-me perfeitamente dele, era um senhor já com os seus cinquenta e muitos anos e que me acompanhou sempre. Desde que tenho memória, aquele cabelo louro dele está gravado na minha mente como algo bom. Ele por vezes fechava os olhos e deixava-me brincar sem tantas regras.
– Ele veio a mando do teu pai, Daniela! – o medo afogou a minha mente de tal maneira que mal queria saber o que me queria.
- A mando do meu pai? O que ele queria? – perguntei a custo mas se vinha como intermediário do meu pai nunca iria dizer à Joana seja o que for
- Tentei perguntar-lhe mas ele não me disse. Ainda me lembro perfeitamente do que ele disse “A mensagem que trago é para ser entregue á menina Daniela e apenas a ela. Quando ela chegar transmita-lhe que eu estive aqui e para me contactar”
Mil e uma coisas voaram na mente, mas nada se formava. O receio de ser mais uma ordem idiota do meu pai era cada vez mais forte. Da última vez que tivera com ele jurou que as coisas não iriam ficar como estavam. O Ricardo podia ser a vítima do meu pai e isso, sabia muito bem, era o meu ponto fraco.
- Ok. Vou-lhe ligar para saber o que ele quer antes que aconteça uma desgraça – pousei a minha roupa no sofá da sala e tirei o telemóvel da minha mala. Procurei o nome do Sr. Alves e assim que o encontrei pus logo a chamar. Depois de alguns bips ele atendeu – Sr. João? É a Daniela…
- Bom dia menina Daniela! – já tinha saudades daquela voz rouca que ele tinha e que impunha respeito mas ao mesmo tempo suavizava o ambiente – Eu sei muito bem que é a menina, a sua voz continua linda como sempre!
- E o senhor João continua a mimar-me como sempre!
- Eu só quero que a menina Daniela esteja feliz e que saiba que gosto muito de si mesmo estando longe! – uma lágrima escorreu-me pelo rosto, inconscientemente sabia que ele me estava a preparar para algo nada bom para o meu lado e o principal responsável seria o meu pai.
- Pronto, já sei que não vem grande coisa…diga lá o que o meu pai quer que eu faça! Eu aguento tudo…
- Menina peço desculpa mas não o posso dizer por telefone, preciso de me encontrar consigo. – O medo apoderou-se do meu corpo, já não estava a aguentar toda a pressão do meu pai por muito que me fizesse de forte frente ao mundo inteiro – Desculpe…eu não lhe queria trazer más noticias mas sabe como é o seu pai! Ele iria mandar outra pessoa no meu lugar mas eu não deixei, prefiro ser eu a contar à menina e cuidar depois de si.
- Ai Sr. João…onde nos podemos encontrar? Em minha casa?
- Pode ser sim! A menina já chegou a casa?
- Já cheguei sim! Pode vir!
- Ok menina Daniela. Dentro de cinco minutos estou em sua casa!
- Até já!
- Até já menina! – desliguei a chamada e a cara de preocupação da Joana era bem visível. Ela já sabia que aquela conversa não iria correr bem. Ela sentou-se ao meu lado e abraçou-me
- Vais ver que não vai ser assim tão mau como pensas Daniee! Não vai acontecer nada… - as palavras dela não me conseguiam consolar, sabia que a noticia que trouxera o Sr. João a Lisboa era muito grave. Mais grave do que qualquer outra que ele tenha proferido
- Claro que não Joana…claro que não! Se veio o Sr. João na vez de outro segurança é porque é grave! Eu conheço-o, ele nunca me vai deixar sossegada com o Ricardo! Nunca! – levantei-me exaltada com tamanha injustiça que estava prestes a viver – Diz-me Joana, porquê que tive que nascer naquela família? Porquê?
- Não escolhemos a nossa família e tu sabes disso! Temos que aprender a conviver com ela… - aquelas palavras irritavam-me, cada vez mais desejava desaparecer do radar do meu pai – Ele é o teu pai e sempre será! Por mais bom ou mau que ele seja, ele nunca deixará de ser teu pai!
- E tu estás do lado de quem? Do meu pai?
- Deixa de ser tola Daniela! É claro que estou do teu lado como sempre estive. Mas não é por ser tua amiga que vou concordar sempre contigo e dizer que estás a agir correctamente quando não estás! – aquela conversa da treta já me começava a irritar
- Então o que estás a tentar dizer é que estou a agir mal? É isso? – só de pensar que ela podia estar a pensar nisso mesmo deixa-me á beira da raiva
- Tu não estás a compreender o que estou a dizer!
- Então explica-te porque eu não estou a perceber! – a minha voz já tinha alteado enquanto que a da Joana continuava serena
- Eu só quero que não compres uma guerra com o teu pai a qual sabes que vais perder! O teu ponto fraco será sempre o Ricardo ou outro namorado qualquer que não seja da confiança do teu pai. Dá umas tréguas ao teu pai…fala com o Ricardo.
- Tréguas? Tréguas? – eu passarinhava, pelo pouco espaço que havia na sala, de um lado para o outro tentando manter a calma. – Esquece Joana! No dia em que der tréguas ao meu pai é porque me vendi às condições absurdas dele! Nesse dia, se alguma vez chegar, morri!
- Deixa de ser tão melodramática, bolas! Custa assim tanto conviveres com ele durante 24 horas? Fazeres um esforço por ti e pelo Ricardo? Não é disso que se trata? Da tua relação com o Ricardo? Então faz um esforço por ele…se não fazes por ti então faz pelo amor que ainda sentes pelo Ricardo!
Já não aguentava tanta pressão. Eram demasiadas condições, demasiados obstáculos. Não queria, de modo nenhum, deixar de ser quem era, do que me fizera sair daquela terra. Tudo o que lutei durante anos não podia desaparecer…estava a lutar pela minha liberdade, toda essa luta não podia ter sido em vão para agora pedir tréguas.
- Vamos comer! Estava conversa não nos vai levar a lado nenhum enquanto não soubermos o que o teu segurança tem para te dizer! – ela levantou-se do sofá e foi para a cozinha. Ouvi alguns barulhos de pratos e talhares e muito rapidamente ela voltou à sala – então? O almoço já está na mesa!
(…)
Ouvi a campainha a tocar quando colocava a ultima grafada do bacalhau com natas que estava no meu prato. Levantei-me instintivamente e dirigi-me para a porta de entrada. Olhei para o binóculo e a silhueta que aparecia do outro lado era-me demasiado familiar, conhecia-o em qualquer lugar do mundo. Abri a porta, a tremer, olhei para a sua face e continuava a mesma de sempre, serena. Quando me viu deixou fugir um pequeno sorriso genuíno, o que me fez abraça-lo com todas as minhas forças.
- Menina Daniela não devia fazer isto… - formou-se um sorriso na minha boca mas não foi contemplado pois tinha a minha cabeça enterrada no ombro esquerdo dele. Ele continuava o mesmo de sempre. – menina... Sabe que os seguranças não podem ter este tipo de proximidades com os seus protegidos! – desaproximei-me dele e encarei-o olhos nos olhos
- Como se o senhor se importasse com isso ou já não se lembra dos beijos de boa noite que me dava todas as noites para eu não ter pesadelos! – aquela pequena recordação fez-me voar para uma infância onde aqueles pequenos momentos me faziam sentir uma criança feliz
- Eu menina? Nunca fizera tal coisa, longe de mim sequer pensar nisso! – o sorriso dele mostrava o quanto estava feliz por me ver e o quanto ele se arriscava só para me fazer desligar no pesadelo em que estava inserida
- Não vamos ficar aqui à porta, entre! – afastei-me um pouco para o lado e dei espaço para ele poder entrar, quando o seu corpo passou na minha frente fechei a porta. – Bem vindo ao meu humilde apartamento e á minha companheira de casa e respectiva melhor amiga, Joana! – a Joana já se encontrava ao meu lado depois de ter vindo da cozinha.
- Muito prazer menina Joana! Já nos tínhamos conhecido na minha anterior vinda a sua casa a qual a menina Daniela não estava, ainda hoje de manhã!
- Exactamente! – a expressão da Joana era muito engraçada pelo facto de ter sido chamada como “menina Joana” – Se não se importa, gostaria que me chamasse só de Joana!
- Vou tentar, Joana! – sorriu o meu segurança. Ele olhou para toda a minha casa e sorriu – Tem uma casa mesmo a seu jeito menina! Pintada toda com cores vivas e alegres, é mesmo a sua cara! Fico muito feliz por isso…
- Obrigada…tentei fazer com que me sentisse o mais possível com aquilo que gostaria de chamar “casa”! Mas também tem o seu toque de Joana… - peguei no braço do Sr. João e encaminhei-o até ao sofá da sala aonde se sentou – Pronto! Estou preparada…pode deixar cair a bomba! – ele retirou do bolso do casaco preto que tinha vestido, um CD com a respectiva capa. Fiquei perplexa com tamanha surpresa…
- Menina, tem um DVD? O recado que tenho para si está neste CD… - apontei, ainda perplexa, para o DVD debaixo da televisão. Olhei para a Joana e estava também surpreendida com tal coisa. O Sr. João levantou-se e colocou o CD na caixa do DVD, poucos segundos depois apareceu no ecrã da televisão a imagem do meu pai sentada na sua cadeira do escritório.
- “Daniela, preferia ser eu a fazer este comunicado pessoalmente mas um contratempo negocial impediu-me de ir a Lisboa nesta altura e assim tive que mandar o Alves na minha vez. Deves estar a perguntar qual assunto tão urgente me levaria até aí e eu respondo de imediato. Como deves estar lembrada a tua prima, Débora, vai-se casar daqui a duas semanas, e ela veio-me pedir expressamente para estar toda a família presente já que ela vai-se casar com o filho mais velho dos Gouveia. Por isso, pensei, que a Daniela pudesse fazer um esforço e vir ao casamento com o Miguel Gouveia. Já que se trata de um casamento com o propósito de unir as duas famílias seria uma enorme falta de educação que a Daniela não estivesse presença. E já sabe como a imprensa é no que toca a jovens solteiras em casamento…por isso, como não pode ir com o seu namoradinho Lisboeta, terá que vir com o Miguel Gouveia! E como pode imaginar, não há como negociar…quero-te aqui, em Viana, na sexta-feira com o Miguel. Este pequeno pedido é pela tua prima por isso vê lá se não estragas um dia tão importante para ela. Adeus!
Ouvi atenciosamente todo aquele comunicado sem alguma vez pestanejar ou sequer mudar a minha atenção para outro lugar. Quando deixei de ouvir o meu pai as lágrimas, a raiva, o desespero vieram à face da pele. Senti uns braços a rodearem o meu corpo inerte, era como se tivesse abandonado o meu corpo mas a dor continuava lá. Só me apetecia acabar com aquela dor, acabar com o meu passado, acabar com as minhas origens. Observei, com a vista turva, o Sr. Alves a levantar-se e a ir até ao DVD e a desligar aquela imagem aterradora. Ele tirou o CD e depois partiu-o ao meio e colocou-o no bolso do casaco.
- Desculpe menina Daniela por trazer noticias que são muito perturbadoras mas eu não podia fazer mais nada para faze-lo mudar de ideias. Sabe como é o seu pai… - “como é o meu pai?! Como é que eu posso chamar a isto PAI? Um PAI devia ser uma pessoa que nos apoia incondicionalmente, que está lá sempre que precisamos, que nos dá na cabeça quando erramos mas também sara as nossas feridas. O meu pai nunca fizera tal coisa comigo…era sempre os negócios em primeiro lugar e o bom nome da família! Mas que raio de pai é este que me põe em sofrimento…odeio-o cada vez mais! - …é de ideias fixas no que toca a si! O seu irmão…
- Eu sei! O meu irmão é o filhinho perfeito para o meu pai! Vai seguir as honras da família e eu é que sou a ovelha negra. Aquela que não quer saber do quão é importante o património…eu sei! Nunca devia ter nascido…
- Menina nunca diga tal coisa…eu tenho a certeza que o seu pai gosta muito de si…ele só quer o melhor para si mas fá-lo de maneira menos própria.
- E o que quer que faça? Que o desculpe assim de um momento para o outro só porque me diz que ele poderá gostar de mim? Por favor, quero que ele vá morrer longe! – a última frase disse sem pensar, saiu-me tão rapidamente da boca que nem dei conta da gravidade da afirmação – Desculpe…não era isto que eu quero que aconteça…acho que… - levantei-me do sofá e dirigi-me para a saída de casa mas fui travada por uma voz
- Daniee… - olhei para a Joana e ela já se encontrava atrás de mim. Deu-me a mão e sussurrou – não será esta a altura perfeita para terminares com o Ricardo já que não sentes o que sentias por ele
- Nem pensar! – respondi de imediato embora o meu coração tivesse vacilado
- Pensa bem…
- Não há nada para pensar! Não vou deixar o Ricardo por um devaneio da minha mente…agora preciso de ir dar uma volta! Preciso de arejar antes de dar a notícia ao Ricardo!
(Ruben)
O David tinha-me dito que primeiro iria passar no estádio e só depois é que vinha ter comigo. Até aí tudo bem, o problema é que ele nunca mais chegava a minha casa. Já passava da hora marcada e nada de David! Depois de algum desespero lá ouvi a campainha e mandei-o subir!
- Estava a ver que não! Que tal telefonares a dizer que vou demorar… - disparei quando abri a porta para ele entrar – Não deve custar assim tanto mandar uma mensagem pois não? – estava mesmo chateado com a demora dele e principalmente com a falta de aviso
- Não mas tive um imprevisto!
- Que imprevisto foi esse que te demorou este tempo todo? Tem alguma coisa a ver com aquilo que foste tratar ao estádio?
- Não…
- Bem mas tu vais-me dizer ou queres que te peça por favor para desembuchares? – ele estava com uma cara estranha e isso estava-me a preocupar
- Bem…foi a Daniela…
- Espera aí…Daniela? A Daniela do Ricardo?
- Desculpe…eu queria me ter afastado mas encontrei ela lá no estádio encharcada e não a consegui deixá sozinha…
- Mas tu endoideceste foi? Ela é a namorada do Ricardo…isso não te diz nada? Tu tinhas-me prometido que irias afastar-te dela e depois no dia seguinte ficas a fazer-lhe companhia!
- Eu sei mas…é mais forte do que eu. Não consegui me afastar… - desde que a viu na Suíça que ele não deixava de pensar nela…parecia que estava obcecado. Mas quando descobriu que ela era namorada do Ricardo foi como se o mundo lhe tivesse desabado – Eu sei que tou errando mas…ela é mais forte do que qualquer coisa!
- Ela é comprometida David! Não está disponível por isso vê se fazes um esforço e afasta-te, é o melhor!
- É isso que vou faze’! – aquelas palavras saíram da boca dele sem determinação nenhuma e isso assustava-me!
(…)
- Que transito! Assim nunca mais chegamos a tua casa – disse resmungando com o tempo perdido naquelas filas intermináveis pouco antes de chegar a casa do David
- Deixa de ser assim! É só uma fila de nada! Tamos em minha casa num instante! – suspirei de desespero. Passados uns cinco minutos estávamos já na estrada que dá acesso á casa dele mas ele parou de repente no meio da estrada!
- O que se passou?
- Olha ali…é a Daniela! – olhei em frente e estava a Daniela sentada num banco com um péssimo ar – nem penses em… - antes de puder acabar a frase já ele tinha saído do carro - …ir ter com ela! – acabei a frase