quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Capitulo V - Uma boa conversa (Parte 2)



Entrei dentro do carro e lembrei-me logo do meu pai, da minha família. Todos aqueles bons carros que estavam estacionados todos os dias à porta da minha casa em Viana só me faziam sofrer e desejar ter outra vida. Rapidamente já estávamos a caminho…

- ‘Cê tem problemas com seu pai? – aquela pergunta fez-me desejar que o Ricardo tivesse estado calado a minutos a trás – só conta se quisé!

- Não tem problema, eu conto. Também não é nenhum segredo por isso… - fiz uma pausa, respirei fundo e comecei – Muito basicamente eu tive uma infância em que pude ter tudo e mais alguma coisa, nasci numa família bastante rica! Bem, não se pode dizer que a minha família seja multimilionária mas também não se pode dizer que seja pobre. É uma daquelas famílias influentes numa certa cidade. Lembro-me de ser criada no meio de empregadas e mordomos, era uma autêntica seca, não me deixavam fazer nada! Para onde fosse tinha que ir com um segurança…podia ser raptada ou algo do género. O meu pai vivi obcecado em não me perder. Vivia numa verdadeira prisão só que não tinha grades!

- ‘Cê era infeliz?

- Com a minha família não…mas com o mundo que me rodeava sim! Tu deves compreender já que és também uma figura publica… Por exemplo, como qualquer jovem, eu também gostava de sair á noite, estar com os meus amigos, namorar, coisas normais de adolescentes! O problema era o que a imprensa escrevia sobre mim…eu, basicamente, era a menina “rebelde” da grande família Morais Martins! E o meu pai normalmente, acreditava mais depressa na imprensa do que em mim… Só me apetecia, por vezes, acabar com a raça daqueles paparazzis!

- Como eu compreendo você! Por vezes as revistas escrevem coisas que não são verdade…a mim também acontece o mesmo muitas vezes! Mas a gente não pode fazer nada…temos de conviver com eles…

- Mas isso é que me irrita solenemente! – eu já estava de meia de lado no banco e na direcção dele – eu queria tanto ter uma vida normal, sei lá, sem aquelas preocupações absurdas de não poder sair à rua com um cabelo fora de sitio senão já sou uma desleixada, ou não posso vestir certo tipo de roupas porque não são do meu nível!

- Foi por isso que ‘cê veio para Lisboa? Pr’a deixar de se sentir desse jeito?

- Eu só queria, unicamente, ser normal! E a única maneira de me ver livre daquela praga era sair de Viana do Castelo! Vim para Lisboa no intuito de não estar preocupada em dar satisfações da minha vida, de com quem saio ou da roupa que visto! Queria ser livre…

- Por aquilo que o Ricardo estava falando isso não aconteceu….eles continuaram perseguindo você?

- Sim…infelizmente! Não de forma tão permanente, tão obsessiva mas mesmo assim forte ao ponto de fazer estragos com a minha família!

- Que aconteceu?

- O meu pai teve a infeliz ideia de me querer arranjar um noivo sabes? Quer-me arranjar um marido em condições, de boas famílias e com todos os apetrechos de famílias ricas, um bom carro, uma boa casa, entre outras coisas!

- E o Ricardo soube?

- Obviamente! Quando o meu pai disse tal coisa nem queria acreditar. Disse que tinha namorado mas ele nem ligou! Fui um fim-de-semana de propósito a Viana apresentar o Ricardo aos meus pais e ele “chumbou” no teste! Nesse momento houve uma ruptura com a minha família…ainda queriam deixar de pagar a minha faculdade mas como teria de ir trabalhar decidiram continuar a “sustentar-me”!

- ‘Cê chegou a conhecer esse tal suposto noivo?

- Se cheguei…ele veio a Lisboa e ainda continua a vir, pelo menos duas vezes por semana tenho um encontro com essa personagem! Chama-se Miguel Gouveia e estuda Direito no Porto, conheci-o a uns meses atrás.

- Me deixe adivinhá…é um daqueles que se tem a mania que é bom e que tem o mundo aos seus pés…

- Por acaso não…ele até é simpático! Mas o facto de ele vir “encomendado” nem sequer deu tempo para ter mais do que um par de frases de cada vez que aparece! Ainda tive um tempo chateado com o Ricardo por isso mesmo, apareceu logo uma revista comigo e com o Miguel e o Ricardo pensou que eu tivesse aceite a proposta do meu pai!

- Também não deve ser fácil pró Ricardo…eu compreendo um pouco ele. Acho que se fosse eu na situação dele não seria fácil viver contra a sua família, ainda por cima sabendo quanto vale o dinheiro!

- Eu sei que não é fácil para ele mas eu preciso de alguém que me compreenda! Se eu estou com o Ricardo é porque tenho uma ligação muito forte com ele…eu não o quero perder por nada deste mundo e muito menos por causa da minha família! Ele está comigo e não com a minha família…

- Mas a família é algo importante pra todo mundo principalmente pra quem está longe dela...eu falo por mim, se eu tivesse na situação dele não conseguia suportar a ideia de ver alguém de quem gosto contra a família por minha causa. Preferia me afastar dessa pessoa e sofrer do que quebrar uma família.

- Então achas que devia ficar com o Miguel? Abandonar tudo em que acredito por causa de uma ideia absurda do meu pai?

- Eu não ‘tou dizendo pra fazer isso desse jeito. O que estou dizendo é que o melhó é conversar com seu pai e esclarecer as coisas entre vocês…falar, por vezes, é o melhó remédio!

- Falar, falar! É muito fácil, o pior é que ele não muda de ideias…ele quer-me ver casada com o Miguel e infeliz do que com o Ricardo e feliz – pela primeira vez disse na mesma frase o nome do Ricardo associado a um casamento. Só a ideia de casar com ele causou-me algum mau estar…definitivamente os meus sentimentos estavam a mudar mas mesmo assim continuava convicta de não o querer perder!

- ‘Cê não acha que está exagerando? Qualquer pai quer que os filhos sejam felizes e não o contrário…

- David, tu não conheces o meu pai! A minha mãe ainda poderia aceitar a ideia de me ver casada com outro agora o meu pai…só de pensar que iria entrar na família alguém sem um nome de “peso” entra logo em curto-circuito! Ele quer acima de tudo preservar o seu “núcleo” e só deixar entrar nele quem quer! Olha tu por exemplo…suponhamos que por acaso sou ligada a ti numa revista qualquer, é o escândalo total…jogadores de futebol estão completamente riscados na lista do meu pai. Ele prefere um pobre do que um jogador de futebol…

- Então é melhó a gente não se ver muitas vezes…não quero arranjar problemas pró seu lado…

- Achas? Nem penses…quero lá saber se ele tem um ataque cardíaco, se explode com a casa…estou-me nas tintas para isso! Como te disse, vim para aqui viver a minha vida e não para ficar fechada numa cela!

- ‘Cê não tem irmãos?

- Tenho…um irmão! Tem dezoito anos…vai agora entrar na faculdade. Convenci-o a inscrever-se em faculdades em Lisboa para o tirar de lá. O meu pai ainda não sabe mas quando souber, vai ser mais um problema para os meus lados! Estou mesmo a ver o discurso dele “Tu só sabes dar maus exemplos ao teu irmão, ele não tem que ser um desgosto para a família como tu foste! Ele vai ser o futuro responsável pelas propriedades da família, ele tem deveres a cumprir!”.

- ‘Cê também não facilita em nada a sua relação com seu pai…

- Eu facilitava se ele o fizesse comigo mas como isso está longe de acontecer…temos pena! Não quero que o meu irmão acabe fechado naquela terra só porque o meu pai o diz!

- E o património da sua família não é importante pra você? Sei lá, o que ‘cê tá fazendo é desfazendo o trabalho de anos do seu pai por causa de uma birra sua…

- Não é birra! Eu só não suporto o facto do meu pai querer controlar a minha vida, principalmente querendo arranjar-me um namorado. – já estava a ver a saída para a minha casa – olha tens que virar aí á esquerda! É esse prédio amarelo…

- ‘Cê gosta mesmo de provocar seu pai!

- Acredita que não consegui arranjar casa com pior aspecto! Devias ter visto a cara do meu pai quando viu a casa…quase que morria! Mas está descansado que não é assim por dentro…

- Ainda bem! Bem está entregue a casa… - abri a porta do carro e saí

- Olha depois tenho que te dar a tua roupa…aonde é que te posso encontrar?

- No Seixal…mas se quisé pode deixar no Ricardo e depois vou lá buscá…não precisa de ir lá de propósito me dar isso…

- Ok…depois falo com o Ricardo! Adeus!

- Adeus! – fechei a porta do um lado e vi o carro desaparecer na curva mais á frente. 

2 comentários:

  1. Parece-me que o David não sente nada por ela, será que vamos ter aqui um caso de amor não correspondido?

    ResponderEliminar
  2. Adorei, quero mais. Quando postas mais?

    ResponderEliminar